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Ode à salada (seria a salada uma “comida de adulto”?)

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Eu amo salada. Salada? Amor? Na mesma frase? Para algumas pessoas esse amor pode parecer estranho, mas desde os 7, 8 anos sou apaixonada por alface americana e posso tranquilamente comer uma cabeça ou saco de alface em uma sentada. Aos 13 eu cortava uma cabeça de brócolis em arvorezinhas, cozinhava, colocava molho de salada em cima e comia tudo. É o tipo de comida que, quando não estou super estressada, sinto desejo de comer (porque quando estou estressada parece que só o carboidrato dá conta do recado eficientemente). Mas não foi sempre assim… acompanhe.

Me frustra um pouco o fato de eu não conseguir fazer a Alis comer salada, mas que criança gosta de salada? Eu sei que eu não gostava e olha só eu aqui, a doida da salada. Marido não cozinha por aqui. Não é porque eu não deixo (pelamordedeus eu deixo), é porque ele não sabe/não quer/não gosta de cozinhar mesmo, então quem prepara a comida aqui em casa sou eu. Quando entro no “modo salada” meu foco é nela e o resto é quase que improvisado, mas ainda assim saudável por causa da Alis. Veja bem, não que o marido não tenha que comer coisas saudáveis também, mas a Alis está em processo de crescimento. Ele, por outro lado, já está bem grandinho e pode compensar uma alimentação meia boca com uma salada de frutas, um dia de detox, sei lá. Mas comecei a falar da salada não só pra contar do meu projeto verão 2020 (que pelo jeito nunca vai acontecer) e sim para falar sobre uma conversa que lembro de ouvir o meu pai tendo com o meu tio. Lembro de ouvi-lo dizer que não conseguia fazer com que eu a minha irmã comêssemos salada e o meu tio respondeu que meu pai tinha que insistir não por meio de palavras, chantagens ou briga, mas dando exemplo. Meu tio disse algo como “Hamilton, coma salada na frente das meninas todos os dias que eventualmente elas vão provar, gostar e comer sempre que virem um prato de salada”. Não foi tiro e queda, foi mais tiro …. …. … 5 anos depois, queda (hehe). Meu amor por salada não nasceu no momento em que vi o meu pai servir alface, tomate e pepino no prato dele, mas isso com certeza me afetou, me deixou curiosa. Poxa, se ele gostava tanto de salada, porque eu não gostaria? Lembro também de encostar o meu ouvido contra a bochecha da minha mãe para ouvir o barulho da alface sendo mastigada. Era um barulho tão engraçado, tão diferente. Crunch, crunch, crunch. Eu não podia nem pensar em provar a alface ainda, eu não estava preparada, mas a semente da vontade estava plantada. Então é isso o que tenho tentado fazer, comer salada na frente da Alis e sem forçar nem nada. Eu ofereço uma folha de alface, um tomate. Ela diz um não bem redondo e volta para o seu prato de macarrão com carne moída e brócolis (cortado em pedaços minúsculos para ela não identificar o verdinho como “a árvore que ela não quer comer”). Tudo bem, estou acostumada a desafios, sou paciente, eu aguardo.

Posso estar viajando, mas me parece mais eficiente mesmo fazer com que as crianças sigam exemplos em vez de chantagens, brigas ou ainda insistência. O exemplo parece ser tão eficiente em outras áreas, como na fala, nos gestos e nos valores, por que não seria em se tratando de alimentação?

Tim and Ruby Lott

Para fechar, um link para um texto que saiu no The Guardian sobre alimentação. É um pai falando sobre como desistiu de insistir para a sua filha comer verduras e legumes. Ele conta uma coisa muito engraçada e eu toootalmente me identifico, mas pelos motivos errados (porque eu fazia igual). Ele explica que um dia levou suas filhas a um restaurante chiquérrimo, cheio de comidas deliciosas e elas se serviram do básico do básico: batatinhas, pão e galinha. Quem nunca fez isso na infância? Bom, o artigo está em inglês, o título traduzido é “Não force as Crianças a Comerem as Verduras” e você pode acessá-lo aqui. Muito bom!

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Links de domingo, só que não

Em vez de link, resolvi falar sobre não dormir. A ideia é postar links no domingo, mas semana passada eles foram ao ar na segunda-feira e nesta semana o mesmo vai acontecer. É aquela coisa chamada VDM, vida de mãe. A gente se planeja pra fazer uma coisa, mas uma variável bem variável chamada filho(a) tem o poder de transformar o previsível em mega imprevisível. Um exemplo super básico disso é a ideia de que se foi dormir tarde, com certeza vai acordar tarde. Em se tratando de um pós-neném, ou toddler, para usar a terminologia americana, o esquema é mais “hmmm, senta lá, Claudia, que isso não vai acontecer”. E é batata. Alis não dá trégua. Acorda às 7:20 desde que nasceu, e sem pena de quem estiver cansado. Aliás, esse é um dos motivos de eu ter tanta dificuldade em sair à noite: tem que valer muito a pena para eu chegar em casa às 2, 3 da manhã e acordar às 7:20. Pois bem, a imagem abaixo ilustra bem como eu me sinto nos dias seguintes às saídas:

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Ontem, durante o dia, mesmo sem sair à noite há mais de 15 dias, eu parecia um zumbi: uma pessoa que se arrasta pela casa e reza para a filha dormir para conseguir tirar um cochilo. Aliás, se eu fosse listar o que eu mais sinto falta desde que me tornei mãe, “dormir” viria em primeiríssimo lugar. Talvez, pela forma que escrevo hoje, depois de sair ontem à noite e estar acordada desde as 7:20 deste domingo ventoso, eu pareça infeliz ou sei lá, mas não. Mesmo sentindo falta das dormidas longas, das tardes livres, do tempo que era meu, não trocaria isso por nada e ainda quero mais um filho. Dá uma trabalheira danada conciliar tudo e ontem mesmo eu olhava pra Alis e dizia, brincando, “ai, tô muito cansada pra ser sua mãe hoje”, e a enchia de beijocas. E é louco que, como diz neste post aqui, mesmo sem ter um trabalho formal (no meu caso, sou autônoma), sou uma das pessoas mais ocupadas que conheço. É que a rotina é crazy: acordar, fazer mamadeira e café da manhã para outro mini-ser, preparar o seu café, arrumar e arrumar-se, preparar mochila, bolsa, trocar fralda (multiplique isso por 6), preparar almoço, dar almoço para o mini-ser, levar para a escolinha, trabalhar/viver/ir ao supermercado/ler o que precisa ser lido/encaixar interações sociais neste período “baby-free”/trabalhar mais um pouco/fazer academia, buscar na escolinha, dar comida, dar banho, dar mamadeira, terminar de trabalhar, comer, tomar banho e dormir.

Tá certo que qualquer pessoa que decida listar o que faz no decorrer do dia provavelmente vai chegar numa lista parecida, “ minus baby functions”, mas acho que mães e pais concordam comigo que não tem muita comparação. Não dá pra dizer (pelo menos na minha opinião) que a vida com filhos seja fácil, porque não é, como tudo na vida que vem e desestabiliza a nossa rotina, só que filhos não apenas desestabilizam a nossa rotina, eles viram na nossa rotina de cabeça pra baixo, fazem careta pra nossa rotina e pros nossos desejos e obrigações. Tem que entregar um job freela? Problema é seu porque eu decidi ficar gripada hoje, então trate de trabalhar comigo na sua cola porque eu não vou para a escolinha. Tem prova de doutorado na segunda-feira? Nem ligo, vou ter uma reação alérgica no meio da madrugada e te manter acordada das 2 às 5h. Mas é difícil explicar porque, em meio a toda essa confusão e mudança, um filho traz tanto prazer e amor. Ontem, quando saímos para jantar e comemorar o aniversário do Green (namorido, pra quem não sabe), vira e mexe falávamos sobre a Alis e como ela é querida/fofa/adorável/inteligente/gostosa e como ela deixou as nossas vidas mais, sei lá, legal mesmo, divertida também e “interessantona”. Tipo, no tempo livre-sem-Alis, falamos dela. É como se a vida fosse um jogo e tivéssemos passado de fase, onde tudo fica um pouco mais difícil e, ainda assim, mais emocionante. Tava falando com uma amiga no chat hoje de manhã, contando sobre o fato de ter dormido pouco e escrevi o seguinte: “guriazinha a mil com a hora do brasil. mãe zumbi. oh well… vamos levando com muito café”. E acho que é bem por aí: café, paciência e amor. “Amor” sem ser amor bobinho, é amor dos grandes mesmo, daqueles que chacoalham o nosso centro.

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Talvez esses sejam os três ingredientes básicos para a maternidade/paternidade: doses gigantescas de café, paciência para lidar com os momentos difíceis (que existem em todas as circunstâncias da vida, não só na maternidade, claro) e amor, sendo que este último é o mais fácil de se encontrar, porque amar um mini-ser fofo que acorda te chamando, dando beijos e abraços é a coisa mais natural que eu consigo pensar.

É isso, essa é a minha ode ao café, à paciência e ao amor!

Bacione e bom domingo!

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Farewell, dad!

Na semana passada, mais precisamente no dia 29 de novembro, perdi meu pai para o câncer. É estranho que o meu último post, que escrevi antes mesmo de saber que ele internaria no mesmo dia, trate do meu pai. Tivemos 4 bons anos para nos curtir desde que Hamilton Savi, meu pai, descobriu um câncer no intestino com metástases no fígado. O médico que o operou em uma cirurgia de emergência lhe deu 4, no máximo 6 meses de vida, mas a vida quis diferente e ele teve uma boa sobrevida de 4 anos. Nos dois primeiros anos eu e minha irmã nos revezávamos para cuidar dele, eu dormindo duas noites seguidas e a minha irmã uma, já que ela tinha/tem dois filhos pequenos, que eram ainda menores na época. Eu estava terminando o mestrado e não me custava ajudar a cuidar de um pai tão querido e atencioso.

Pai Jornal

Pai no DC de quinta-feira passada, dia 6, onde foi publicada uma matéria sobre a vida dele. Na foto, ele em Paris, curtindo a Europa que tanto amava.

Depois de dois anos, meu pai achava que não duraria muito e me pediu para viajar com ele para a Europa, meio que para se despedir do mundo em grande estilo. Fomos para Paris e Londres, duas cidades que ele ama de paixão. Eu, ele, minha sobrinha que estava com 12 anos e minha mãe embarcamos em dezembro de 2010 e lá, apesar de alguns probleminhas técnicos de saúde que ele teve, foi uma delícia e um sonho realizado. Novamente, o mundo tinha seus próprios planos e meu pai ficou muito bem até julho de 2011. Eu já estava grávida quando, neste mês, meu pai teve uma séria crise de encefalopatia hepática. Ele entrou em um estado catatônico muito estranho, não se comunicava, mas entendia o que os outros diziam, então conseguia comer e, com algum esforço, caminhar. Meus queridos tios entraram na jogada e nos ajudaram a cuidar dele. Aliás, meu pai se mudou para a casa da minha tia Raquel e lá ficou até março de 2012, quando se mudou para o Residencial Vida Nova, um lar para a terceira idade mais que maravilhoso e com uma equipe de primeira. Ainda quero escrever mais sobre esta experiência porque acredito que as pessoas têm uma ideia sobre lares para idosos que nem sempre bate com a realidade. Estava claro que ele estava em um lugar que, embora fosse simples para os padrões a que ele estava acostumado, é maravilhoso e extremamente humano. Meus tios realmente se esforçaram, dou todo o mérito a eles, mas meu pai já estava em um estágio da doença que, em família, acredito que se for possível pagar pela hospedagem do paciente em uma clínica, melhor. Meu pai começou a ter alguns distúrbios de personalidade depois que a encefalopatia hepática começou a se manifestar, então não era sempre fácil lidar com ele nessas horas. Ele ficava um pouco agressivo, demandava muito dos cuidadores, pedindo para ir ao banheiro de cinco em cinco minutos e ficando alterado quando seus desejos não eram atendidos prontamente. Em família, e digo isso porque eu confundi muito as coisas, é mais difícil processar essas manifestações de necessidades, mas em um ambiente preparado para doenças é mais fácil porque todos estão acostumados a isso. Lembro que da primeira vez que meu pai teve uma crise de agressividade, Eliana, a dona do Vida Nova, me ligou e contou o que havia acontecido. Eu, preocupada, perguntei “Ele vai ter que sair do Vida Nova?”, e ela me disse “Imagina, estamos acostumados, só estou contando o que aconteceu para vocês ficarem a par da situação”, ou seja, existe uma compreensão da doença que a família, por estar emocionalmente envolvida, nem sempre consegue ter. Aliás, digo isso não por causa dos meus tios, que, acredito, eram muito mais pacientes e capazes que eu, digo porque depois da crise de encefalopatia hepática, eu, grávida e em seguida com neném pequeno, nem sempre sabia lidar com as alterações de personalidade dele. Eu ficava triste, deprimida, preocupada, com raiva, impaciente, tudo junto e misturado. Eu, realmente, naquele/neste momento da minha vida em que estava me tornando mãe, queria o meu pai bem, participativo, curtindo a neta, me ajudando no processo de me tornar mãe, me ajudando a cuidar da pequena, participando das primeiras experiências, o primeiro cinema, a primeira fruta, o primeiro sorriso. Quando meu pai se recuperou da primeira vez da primeira crise de encefalopatia, olhou pra minha barriga e disse “A minha meta é conhecer a Alis. Depois disso, posso partir em paz”. E ele conheceu a netinha, curtiu a netinha até onde pôde, participou como foi possível e me ajudou dando valiosos conselhos sempre que estava lúcido e sempre, sempre, sempre me deu muito carinho e amor.

conselho 1

Em 2003, meu pai me deu o livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda e escreveu na dedicatória: “Melina, quem sabe escolher um livro nunca está só”.

Eu tive um pai maravilhoso e serei eternamente grata por todas as lições, todo o amor, a dedicação, a educação, as repreensões, os livros que ele me deu, os filmes a que assistimos juntos no cinema, os cappuccinos que tomamos juntos e que eram sempre regados a uma boa conversa, à força que ele teve para se manter vivo e bem (na medida do possível, como ele mesmo diria) para conhecer a Alis e ter seu papel de avô na vida desta pequena. “Saudade” é agora uma palavra eterna no meu vocabulário. Ainda bem que nasci no Brasil, onde ela existe.

No vídeo, grandpa Hamilton falando sobre sua experiência no Vida Nova com a netinha no colo!

PS: Eu faria tudo de novo!

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