Barulhinho Bom

Para ler ouvindo:

Quem escreve, escreve como? Do que você precisa para conseguir esvaziar seu peito de todas aquelas palavras que descrevem, da melhor maneira possível (assim você espera), o que você sente (ou precisa escrever para um trabalho)? Escrever com barulho em volta eu até consigo, mas não consigo ler atentamente com muita coisa acontecendo ao meu redor. Vira e mexe até me inspiro com as interrupções da minha filha, que me pede para participar de uma brincadeira ou simplesmente quer a minha atenção por achar que eu pertenço a ela. E realmente acho isso: penso que às vezes a A. me interrompe simplesmente para lembrar-me de que ela deve ser o centro do meu universo. E não, isso não me chateia, acho até charmoso. Gosto de ver o peito dela estufar quando enxerga em mim um porto seguro, um parque de diversões para as brincadeirinhas dela.

Desde que o meu pai adoecei, “peguei” uma mania, como se fosse um estado de saúde mesmo: relativizo tudo. Comparo o que estou vivendo com o que está acontecendo no mundo, comparo o que me aborrece com uma imagem panorâmica do mundo. Conflito na faixa de Gaza? Um bilhão de vezes mais importante que a minha necessidade por silêncio para me concentrar. Avião atingido por separatistas na Ucrânia? De novo, milhares de vezes mais complicado que o fato de eu não conseguir escrever três linhas seguidas porque a A. está me solicitando. E isso que nesses exemplos estou usando as coisas que a mídia considera grandes; coisas muito mais próximas de mim são igualmente complicadas, e nem preciso listá-las porque uma zapeada na TV local já basta para sabê-lo. Pode parecer que é um discurso de Poliana esse meu, mas não é, é apenas uma estratégia de sobrevivência que encontrei para entender que o barulhinho que me cerca é maravilhoso e que tenho um privilégio incrível em poder tê-lo. Dito isto, é importante ressaltar que tenho os meus métodos de escrita, independentemente dos acontecimentos trágicos do mundo. Gosto de estar descansada, de ver vida ao meu redor. Escrevo feliz da vida em cafés, com burburinho de conversa e música ambiente, e gosto de saber que não vou ser interrompida repetidas vezes com mensagens na internet e no celular (me distraem mais que a A.). Desligo os chats e desativo o 3G para fingir que estou sozinha, ainda que esteja em um lugar movimentado. E, se eu estiver em casa a Alis aparecer para pedir uma bitoca ou um arrego, meço as minhas prioridades e decido o que fazer. Mas que interrupçãozinha boa de ter.

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Fica difícil reclamar recebendo um colinho desses…

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