O que não te falam quando você está grávida

Acho que se fosse pra dizer qual foi o momento mais apavorante quando a Alis nasceu, diria que foi a caminhada – a longa e nervosa caminhada – do quarto da maternidade até o carro que nos levaria para casa. Aquele foi o momento em que a depressão pós-parto (sobre a qual eu nada sabia, tansinha) bateu. Eu me sentia mal por causa da cesárea, sentia enxaqueca que tive em função do problema que rolou com a epidural e estava certa de que não tinha a mínima ideia de como lidar com um neném (mas claro que eu sabia, só que a depressão pós-parto não me deixava enxergar a realidade). Eu já contei aqui um pouco sobre como foi a minha depressão pós-parto, e sei que ela foi levíssima porque não rejeitei a Alis, não fiquei incapaz de cuidar dela e não deixei de sentir amor por ela, só que não conseguia me sentir feliz. O que permeava cada célula minha era uma infindável melancolia e eu me perguntava, dia após dia, se eu algum dia seria feliz de novo. Ainda bem que isso tudo durou pouco. A Alis nasceu numa sexta-feira de carnaval (êlaiá), no domingo comecei a sentir essa melancolia e dois domingos depois eu já estava praticamente curada, então foram só duas semanas de muita choradeira, mas muita mesmo. Uma coisa que ajudou muito (além do meu marido, minha mãe, irmã e amigas) foi ler poesias inspiradoras, e uma delas é esta:

No te aflijas: la belleza volverá a encantarte con su gracia;

tu celda de tristeza se trocará en un jardín de rosas.

No te aflijas: tu mal será trocado en bien;

no te detengas en lo que te inquieta,

pues tu espíritu conocerá de nuevo la paz.

No te aflijas: una vez más la vida volverá a tu jardín

y pronto verás, ¡oh cantor de la noche!

una corona de rosas en tu frente.

No te aflijas si, algún día,

las esferas del cosmos no giran según tus deseos,

pues la rueda del tiempo no gira siempre en el mismo sentido.

No te aflijas si, por amor,

penetras en el desierto y las espinas te hieren.

No te aflijas, alma mía,

si el torrente del tiempo arrastra tu morada mortal,

pues tienes el amor para salvarte del naufragio.

No te aflijas si el viaje es amargo,

no te aflijas si la meta es invisible.

Todos los caminos conducen a una sola meta.

No te aflijas, Hafiz,

en tu rincón humilde en que te crees pobre,

abandonado a la noche oscura,

y piensa que aún te queda tu canción y tu amor.

– Hafiz

Essa poesia virou um mantra por uma semana inteira. Cada vez que chegava ao fundo do poço, eu parava e a lia mais uma vez.

Acho que fui bem ingênua durante a gravidez, pensando apenas no durante e nunca no depois. Eu imaginava a caminhada do quarto da maternidade para o carro como a mais feliz do mundo, mas a imaginação meio que parava aí. Eu não tinha noção de como seria a rotina, de que a amamentação poderia não ser um mar de rosas (e não foi no início), não sabia como reagiria ao choro da Alis e assim por diante, e bota diante nisso.

Então assim… se eu pudesse voltar no tempo  – o que eu não posso, então vale pelo menos dar a letra para as grávidas de plantão, – me prepararia melhor para o futuro. Leria sobre depressão pós-parto e conversaria com quem teve e quem não teve para entender que é uma questão hormonal e não a realidade, leria mais sobre amamentação e buscaria um serviço especializado (como o que existe na maternidade Carmela Dutra) para me preparar para essa função superimportante que pode ou não ser difícil no começo, e diria que é fundamental encontrar parceiros para essa jornada, tanto na forma de um marido quanto na forma de mãe, pai, amigas, amigos, babá, doula, o que for. Mas cercar-se de pessoas em quem você confia é uma forma maravilhosa de se permitir relaxar, porque realmente não é fácil dormir ou tomar banho se você não souber que alguém está de prontidão para atender seu baby recém-nascido (sim, eu era super noiada).

Grávidas, sintam-se suuuuper à vontade para perguntar o que quiserem. Eu, como mãe de primeira viagem, posso não ter todas as respostas, mas posso ajudá-las a chegar até elas. ;)

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1 comentário

Arquivado em Gravidez

Uma resposta para “O que não te falam quando você está grávida

  1. Eliana Ternes Pereira

    Muito legal! Maezinha de primeira linha!!! e filha maravilhosa!

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